Portugal ganha vantagem na corrida à inteligência artificial com energia verde mais barata e forte cobertura de fibra

August Vardvik
10 Min de leitura

Energia renovável competitiva, cobertura de fibra próxima dos 98% e um ecossistema tecnológico em crescimento colocam Portugal numa posição favorável na expansão da IA.

Portugal reúne condições que podem transformar o país num dos pontos estratégicos da Europa para o desenvolvimento da inteligência artificial. Uma análise divulgada pela McKinsey e destacada em Portugal a 12 de setembro aponta para uma combinação particularmente relevante: elevada cobertura de fibra ótica, custos competitivos de energia renovável e um ecossistema tecnológico que já começa a incorporar soluções de IA em diferentes setores. Segundo a análise publicada pelo Dinheiro Vivo, a cobertura de fibra aproxima-se dos 98%, enquanto os custos de energia verde podem ser cerca de 30% inferiores à média europeia. (Diário de Notícias)

Estas vantagens surgem numa altura em que a capacidade de computação e o acesso a eletricidade se tornaram fatores essenciais para determinar onde serão instalados novos centros de dados e infraestruturas de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, a McKinsey identifica uma diferença importante entre utilizar IA e conseguir transformá-la em resultados económicos: cerca de 80% dos profissionais inquiridos dizem obter ganhos individuais de produtividade, mas apenas 37% das organizações indicam uma contribuição positiva da tecnologia para os resultados operacionais. (McKinsey & Company)

Porque é que Portugal pode ganhar espaço na corrida europeia à inteligência artificial?

A primeira vantagem está na infraestrutura digital. Uma cobertura de fibra próxima dos 98% significa que Portugal dispõe de uma base de conectividade muito desenvolvida para suportar serviços digitais, empresas tecnológicas e aplicações que dependem da circulação rápida de grandes quantidades de dados. Esta característica torna-se ainda mais importante à medida que os modelos de inteligência artificial aumentam de dimensão e passam a ser utilizados em atividades empresariais quotidianas. (Diário de Notícias)

A conectividade, porém, é apenas uma parte da equação. Sistemas avançados de inteligência artificial dependem de centros de dados equipados com grandes quantidades de servidores e processadores especializados. Estas instalações necessitam de eletricidade em grande escala, o que torna o preço e a disponibilidade da energia fatores cada vez mais importantes na decisão sobre onde instalar novas infraestruturas.

É neste ponto que Portugal pode beneficiar da sua posição no setor das energias renováveis. Segundo a análise divulgada pelo Dinheiro Vivo, os custos da energia verde no país são cerca de 30% inferiores à média europeia. Num setor em que a eletricidade representa uma componente significativa dos custos operacionais, esta diferença pode aumentar a capacidade portuguesa para atrair investimento relacionado com computação intensiva e centros de dados. (Diário de Notícias)

A própria evolução do setor energético europeu reforça a importância desta vantagem. A McKinsey considera que a eletrificação, as renováveis, o crescimento da economia digital impulsionada pela IA e as preocupações com soberania e preços estão a alterar profundamente o funcionamento do mercado energético europeu. (McKinsey & Company)

Portugal pode ainda beneficiar da sua localização geográfica e da ligação a redes internacionais de telecomunicações. O país tem vindo a ganhar importância como ponto de entrada e circulação de dados, enquanto Sines surge frequentemente associado à expansão de centros de dados e de infraestruturas digitais de grande dimensão.

Esta combinação de conectividade, energia e localização não garante automaticamente que Portugal se transforme num líder europeu de IA. No entanto, cria condições de partida que podem tornar o país mais competitivo perante mercados europeus onde a disponibilidade de energia e a capacidade das redes começam a representar limitações ao crescimento das infraestruturas digitais.

O que podem ganhar as empresas portuguesas com a expansão da IA?

O segundo desafio está dentro das próprias empresas. A adoção de inteligência artificial tem aumentado rapidamente, mas instalar ferramentas de IA não significa necessariamente conseguir melhorar receitas, margens ou produtividade de toda a organização. Os dados globais da McKinsey mostram precisamente essa diferença. (McKinsey & Company)

Cerca de oito em cada dez profissionais abrangidos pela investigação indicam que a inteligência artificial melhorou a sua produtividade individual. No entanto, apenas 37% dizem que a tecnologia já contribuiu positivamente para os resultados das respetivas organizações. Isto significa que muitas empresas conseguem utilizar ferramentas de IA, mas ainda têm dificuldades em transformar experiências isoladas numa alteração profunda da forma como trabalham. (McKinsey & Company)

Esta questão é particularmente relevante em Portugal devido ao peso das pequenas e médias empresas. Uma PME pode não ter os recursos financeiros ou equipas tecnológicas disponíveis numa grande multinacional, mas as novas ferramentas de IA também reduzem algumas das barreiras tradicionais de escala. Sistemas que anteriormente exigiam equipas numerosas ou investimentos elevados estão progressivamente disponíveis através de plataformas acessíveis a organizações mais pequenas. (Diário de Notícias)

O resultado dependerá, em grande parte, da forma como cada empresa utiliza a tecnologia. Automatizar tarefas administrativas, melhorar atendimento ao cliente, analisar documentos, prever procura, apoiar decisões comerciais ou otimizar operações são exemplos de utilizações que podem produzir ganhos concretos quando estão associadas a problemas bem identificados.

Setores como banca, saúde e energia já apresentam exemplos de integração de IA generativa em Portugal, segundo a análise divulgada pelo Dinheiro Vivo. O próximo passo será perceber se estas experiências conseguem passar de projetos específicos para uma utilização transversal que produza ganhos mensuráveis. (Diário de Notícias)

O emprego é outro ponto inevitável do debate. A expansão da IA deverá alterar funções e competências exigidas aos trabalhadores, mas não existe uma relação automática entre adoção tecnológica e desaparecimento generalizado de postos de trabalho. A transformação poderá envolver sobretudo uma reorganização das tarefas, com determinadas atividades automatizadas e outras a exigir maior capacidade de supervisão, análise e utilização das próprias ferramentas de IA.

O que falta para Portugal transformar estas vantagens em investimento?

Ter energia competitiva e uma boa rede de telecomunicações não será suficiente se existirem obstáculos prolongados à concretização de novos projetos. A capacidade para licenciar infraestruturas, garantir ligações à rede elétrica, disponibilizar talento especializado e oferecer estabilidade regulatória terá influência direta na capacidade portuguesa para converter as vantagens existentes em investimento real.

A simplificação regulatória aparece, por isso, entre os temas destacados na análise sobre Portugal. Rita Calvão, sócia associada da McKinsey em Portugal, aponta a necessidade de evitar que o enquadramento regulatório se transforme num travão à capacidade das empresas para adotar e desenvolver inteligência artificial. (Diário de Notícias)

Existe ainda uma dimensão europeia. A União Europeia procura simultaneamente estimular a inteligência artificial, proteger direitos fundamentais e reduzir a dependência tecnológica de outros grandes blocos económicos. Portugal terá de encontrar espaço dentro desta estratégia, aproveitando as suas vantagens sem deixar de cumprir as novas exigências europeias sobre utilização e desenvolvimento de IA.

A energia poderá ser um dos principais elementos dessa estratégia. Os centros de dados e sistemas de computação de alto desempenho necessitam de fornecimento elétrico contínuo e em grande escala. Países capazes de combinar disponibilidade de energia renovável, preços competitivos, redes robustas e boas ligações internacionais podem ganhar importância na nova geografia digital europeia.

Também será necessário investir em pessoas. Engenheiros, investigadores, especialistas em dados, profissionais de cibersegurança e trabalhadores capazes de utilizar IA nas suas próprias áreas serão essenciais para que o país não se limite a alojar servidores. A criação de valor económico dependerá da capacidade de desenvolver produtos, empresas e conhecimento a partir da infraestrutura instalada.

Portugal parte, portanto, com algumas vantagens relevantes, mas a oportunidade não está garantida. A cobertura de fibra próxima dos 98% e os custos competitivos da energia verde colocam o país numa posição interessante num momento em que a inteligência artificial exige cada vez mais conectividade e eletricidade. (Diário de Notícias)

O verdadeiro teste será transformar essas condições em investimento, empresas, emprego qualificado e produtividade. Se conseguir combinar infraestrutura digital, energia renovável, talento, financiamento e regras capazes de acompanhar a velocidade da inovação, Portugal poderá deixar de ser apenas um utilizador de tecnologia estrangeira e assumir um papel mais relevante na infraestrutura e na economia europeia da inteligência artificial.

Fontes: Dinheiro Vivo — Energia verde 30% mais barata e 98% de fibra: os trunfos de Portugal na corrida à IA · McKinsey — Perspetivas recentes sobre adoção e retorno da inteligência artificial · McKinsey Portugal · McKinsey — Transformação do setor energético europeu na era da IA

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