Para o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, existe uma cena cada vez mais comum no Brasil: pessoas comemorando os 60 anos enquanto fazem planos para viajar, iniciar novos projetos, praticar atividades físicas ou até começar uma nova fase profissional. Em muitos casos, elas já atingiram a idade oficialmente considerada como início da terceira idade, mas não se reconhecem dentro da imagem tradicional associada ao envelhecimento.
Essa mudança não acontece por acaso. Nas últimas décadas, a população passou a viver mais, ter maior acesso à informação sobre saúde e adotar hábitos que favorecem a qualidade de vida. Como consequência, a forma de enxergar a passagem do tempo também começou a mudar, alterando percepções que permaneceram praticamente inalteradas por gerações.
Diante desse cenário, cresce uma reflexão que chama a atenção de especialistas: por que cada vez mais pessoas chegam aos 60 anos sem se considerar idosas? A resposta ajuda a compreender como o envelhecimento está sendo redefinido por uma sociedade que vive mais, permanece ativa por mais tempo e constrói novas expectativas para o futuro. Interessado em saber mais? Confira, a seguir.
O que mudou na forma como a sociedade enxerga o envelhecimento?
Durante décadas, a velhice foi associada principalmente à aposentadoria, à redução das atividades sociais e ao afastamento de determinados papéis desempenhados ao longo da vida. Essa percepção influenciou gerações inteiras e ajudou a construir uma imagem bastante específica sobre o que significava envelhecer.
Entretanto, a realidade observada atualmente é diferente. Muitas pessoas com mais de 60 anos continuam trabalhando, estudando, viajando, praticando atividades físicas e participando ativamente da vida social. Segundo Yuri Silva Portela, essa transformação contribui para que a idade deixe de ser vista como o principal fator capaz de definir a identidade ou o estilo de vida de uma pessoa.
A longevidade está mudando a percepção sobre a idade?
O crescimento da longevidade é um dos fatores que ajudam a explicar essa mudança de comportamento. Quando a expectativa de vida era menor, atingir determinadas faixas etárias representava uma etapa muito diferente da observada atualmente. Hoje, viver até os 80, 90 anos ou mais tornou-se uma possibilidade cada vez mais comum.

Como consequência, os 60 anos passaram a ser percebidos por muitas pessoas como o início de uma nova fase e não como o encerramento de oportunidades. De acordo com o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, essa ampliação do tempo de vida faz com que a população reavalie conceitos que permaneceram praticamente inalterados durante décadas.
O envelhecimento ativo influenciou essa transformação?
Nos últimos anos, o conceito de envelhecimento ativo ganhou espaço nas discussões sobre saúde e qualidade de vida. A proposta é incentivar a participação social, a manutenção da autonomia e a adoção de hábitos que favoreçam o bem-estar físico e emocional ao longo do tempo.
Além disso, a disseminação de informações sobre prevenção e cuidados com a saúde contribuiu para que muitas pessoas chegassem à terceira idade em melhores condições do que gerações anteriores. Conforme destaca Yuri Silva Portela, o envelhecimento saudável está cada vez mais relacionado à capacidade de manter projetos, vínculos e participação social, e não apenas à ausência de doenças.
Existe diferença entre idade cronológica e idade percebida?
Especialistas vêm observando que muitas pessoas não se identificam com os estereótipos tradicionalmente associados à velhice. Em diversas situações, a forma como alguém percebe a própria idade está mais relacionada à sua rotina, disposição e qualidade de vida do que ao número registrado nos documentos.
Essa diferença ajuda a explicar por que tantos indivíduos acima dos 60 anos afirmam não se sentir idosos. Mais do que negar o processo de envelhecimento, essa percepção reflete mudanças culturais e comportamentais que acompanham a evolução da sociedade. Afinal, envelhecer deixou de significar necessariamente abrir mão de autonomia, participação ou objetivos pessoais.
Talvez a pergunta não seja quantos anos temos, mas como estamos vivendo
O aumento da expectativa de vida está transformando conceitos que, durante muito tempo, pareceram imutáveis. À medida que a população vive mais e permanece ativa por períodos maiores, a idade deixa de ser o único parâmetro utilizado para compreender o envelhecimento e passa a dividir espaço com fatores relacionados à qualidade de vida e ao bem-estar.
Por fim, o doutor Yuri Silva Portela conclui que a discussão sobre envelhecimento saudável envolve muito mais do que números. Em uma sociedade cada vez mais longeva, talvez a questão mais importante não seja definir quando alguém se torna idoso, mas compreender como criar condições para que as pessoas envelheçam com autonomia, participação social e qualidade de vida.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez