Portugal é um dos poucos países da zona euro onde os preços não estão a aliviar

Diego Velázquez
8 Min de leitura

Enquanto a inflação recua na generalidade da Europa, o custo de vida em Portugal continua colado nos 3,1%, mais um sinal de que a folga no orçamento das famílias ainda vai demorar a chegar

Os dados mais recentes do Eurostat, divulgados a 17 de julho de 2026, confirmam aquilo que muitos portugueses já sentiam no supermercado e na bomba de gasolina: o alívio generalizado na inflação da zona euro não chegou a Portugal. Enquanto a taxa de inflação homóloga recuou de 3,2% em maio para 2,8% em junho no conjunto dos 21 países da moeda única, em Portugal o indicador manteve-se praticamente inalterado, nos 3,1%. Ao lado de Espanha, Lituânia e Chipre, o país integra o pequeno grupo de economias que não beneficiou da travagem nos preços da energia registada no resto do continente. Para quem gere o orçamento familiar, a questão que se impõe é direta: porque é que os preços continuam a subir mais depressa em Portugal do que nos países vizinhos, e quando é que essa diferença deverá esbater-se.

Porque é que a inflação não abranda em Portugal ao mesmo ritmo da zona euro

A explicação começa no mesmo fator que, paradoxalmente, ajudou a travar a inflação no resto da Europa: os preços da energia. Segundo o Eurostat, a subida generalizada de preços na zona euro nos primeiros meses do ano esteve associada ao encerramento do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás transacionados no mundo, na sequência do conflito no Médio Oriente que envolveu Estados Unidos, Israel e Irão. Com o acordo de 60 dias alcançado entre Teerão e Washington a 21 de junho, os preços do petróleo começaram a recuar, e essa descida refletiu-se de forma mais rápida na generalidade dos países do euro do que em Portugal.

O Instituto Nacional de Estatística confirmou, na sua leitura mais recente, que a inflação em Portugal medida pelo Índice de Preços no Consumidor abrandou apenas ligeiramente, de 3,3% em maio para 3,2% em junho, uma décima abaixo do mês anterior. Os produtos energéticos desaceleraram de forma mais expressiva, de 13,1% para 9,1%, mas essa travagem não foi suficiente para colocar o país em linha com a média europeia. Já a inflação subjacente, que exclui energia e alimentos frescos e é considerada pelos economistas um indicador mais fiável da tendência de fundo dos preços, subiu de 2,2% para 2,5%, um sinal de que a pressão sobre os preços não está limitada aos combustíveis.

O que dizem os números oficiais sobre o custo de vida das famílias

Um dos aspetos mais visíveis para o consumidor comum é o comportamento dos alimentos não transformados, uma categoria que inclui produtos frescos como fruta, legumes e peixe. Segundo o INE, esta categoria registou uma variação homóloga de 5,1% em junho, uma travagem face aos 5,7% de maio, mas ainda assim um valor bem acima da inflação geral. Para as famílias com rendimentos mais limitados, que gastam uma fatia maior do orçamento em bens essenciais, este tipo de subida pesa de forma mais evidente do que a média nacional deixa transparecer.

O Banco de Portugal já tinha antecipado, no seu Boletim Económico de junho, que a inflação deverá fixar-se em torno dos 3,1% para todo o ano de 2026, com uma aproximação gradual aos 2% apenas nos anos seguintes. A instituição associa a subida de 2026 sobretudo ao efeito do conflito no Médio Oriente sobre o preço do petróleo, um fator que, segundo a Comissão Europeia, deverá atingir o pico no segundo trimestre do ano e diminuir de forma gradual a partir daí, à medida que o encarecimento da energia se dissipa lentamente nos restantes bens e serviços que dela dependem.

O que explica a diferença face aos restantes países da zona euro

A comparação com os restantes 21 países da moeda única ajuda a perceber a dimensão do problema português. Segundo o Eurostat, a taxa de inflação anual da União Europeia foi de 2,9% em junho, também ela abaixo dos 3,3% do mês anterior, uma travagem que Portugal, uma vez mais, não acompanhou. O facto de o indicador harmonizado português (medido pelo IHPC, que permite a comparação direta entre países) ter ficado 0,3 pontos percentuais acima da média da zona euro é lido pelos analistas como sinal de que existem fatores internos, para além da energia, a contribuir para a persistência dos preços elevados em Portugal.

Entre esses fatores contam-se a resiliência da procura interna e a dinâmica dos serviços, setores menos sensíveis às oscilações do preço do petróleo e que têm mantido um ritmo de subida mais constante. Os economistas têm ainda apontado o mercado da habitação e o custo dos alugueres como elementos que continuam a pressionar o orçamento das famílias portuguesas, numa altura em que os salários, apesar de terem crescido, ainda não compensam totalmente a perda de poder de compra acumulada nos últimos anos. Esta combinação ajuda a explicar por que motivo, mesmo com o petróleo mais barato, os preços em Portugal continuam a ceder mais devagar do que na maior parte da zona euro.

Quando é que os preços deverão finalmente abrandar em Portugal

A resposta a esta pergunta depende, em larga medida, da evolução do contexto geopolítico e da forma como o preço da energia se vai refletindo, com atraso, nos restantes setores da economia. O cenário traçado pela Comissão Europeia aponta para uma descida gradual da inflação ao longo do segundo semestre, à medida que o efeito da subida do petróleo se dissipa. Ainda assim, a experiência dos últimos meses mostra que Portugal tem reagido de forma mais lenta a estas travagens do que os seus parceiros europeus, o que deixa os consumidores portugueses numa posição mais vulnerável enquanto o ajuste não se completa.

Para as famílias, a recomendação mais prática continua a ser a mesma de sempre: comparar preços, aproveitar promoções em bens essenciais e acompanhar de perto a evolução dos combustíveis, que continuam a ser o fator mais volátil desta equação. Enquanto isso, os números do Eurostat e do INE vão continuar a ser publicados mensalmente, e será nessa leitura mês a mês que se perceberá se Portugal está, finalmente, a aproximar-se da travagem que o resto da Europa já sente no bolso.

Fontes consultadas:
Idealista News | Sapo Notícias | TVI Notícias | ECO

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