Submersíveis capazes de transportar até 10 toneladas têm sido detetados junto à costa portuguesa e aos Açores, segundo relatório da UNODC divulgado esta sexta-feira.
Portugal passou a integrar a rota do tráfico marítimo de cocaína para a Europa, segundo um relatório divulgado esta sexta-feira pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, conhecido pela sigla UNODC. O documento descreve uma mudança geográfica significativa nas rotas de entrada da droga no continente europeu, com os traficantes a afastarem-se dos grandes portos do norte da Europa em direção a países como Portugal, Espanha e França. Para quem acompanha a segurança interna do país, a notícia levanta uma pergunta inevitável: porque é que Portugal se tornou um ponto estratégico nesta nova rota transatlântica e que tipo de embarcações estão a ser usadas para evitar a deteção pelas autoridades. A resposta está detalhada no próprio relatório da ONU, que cruza dados de apreensões com uma análise das mudanças operacionais das redes criminosas ao longo da última década.
Como e porquê Portugal passou a integrar a rota da cocaína
De acordo com o relatório da UNODC, referente a 2026, as quantidades totais de cocaína apreendidas diminuíram na Europa ocidental e central, mas o tráfico não desapareceu, apenas se deslocou. Os principais portos da Bélgica, da Alemanha e dos Países Baixos, que durante anos foram os pontos de entrada preferenciais da droga vinda da América Latina, perderam protagonismo, enquanto a atividade se intensificou em portos mais pequenos e em países como Portugal, Espanha e França. A explicação dada pela UNODC à agência Lusa é direta: o reforço da cooperação internacional entre agências fez aumentar sete vezes o número de apreensões entre 2014 e 2023, obrigando as redes criminosas a procurar alternativas com menor exposição ao escrutínio das autoridades nos grandes portos europeus.
Esta mudança de rota não significa apenas uma alteração de destino, mas também uma transformação no próprio método de transporte. O relatório destaca o aumento do uso de semi-submersíveis, embarcações de perfil muito baixo e normalmente construídas em fibra de vidro para reduzir a deteção por radar, capazes de transportar até 10 toneladas de cocaína numa única viagem. Até há pouco tempo, este tipo de embarcação era associado principalmente a trajetos curtos no Oceano Pacífico ou no Mar das Caraíbas, mas os dados mais recentes confirmam que passaram também a ser utilizadas em travessias transatlânticas de longa distância, incluindo nas proximidades da costa portuguesa.
O que mostram os casos detetados junto aos Açores e à costa portuguesa
O relatório da UNODC é específico quanto à dimensão do fenómeno junto ao território português. Entre 2023 e 2025, fontes abertas documentaram pelo menos seis casos de deteção de submersíveis perto da Península Ibérica ou das ilhas portuguesas, um número que, segundo a organização, reflete uma tendência crescente e não episódios isolados. Um destes casos resultou na apreensão de 6,5 toneladas de cocaína a cerca de 500 milhas náuticas a sul dos Açores, uma quantidade que dá uma ideia da escala das operações que atualmente atravessam as águas próximas de Portugal continental e do arquipélago açoriano.
Esta tendência identificada pela ONU é corroborada por uma operação policial recente e concreta. A Polícia Judiciária liderou, entre 27 de maio e 15 de junho, a chamada Operação Azul 2.0, focada precisamente no corredor atlântico entre as Ilhas Canárias e os arquipélagos portugueses da Madeira e dos Açores, área que as próprias autoridades já apelidam de “autoestrada da cocaína”. A operação resultou na apreensão de 465 quilogramas de cocaína e 42 quilogramas de haxixe, na deteção de duas embarcações de alta velocidade e na detenção de três pessoas, com a colaboração de autoridades de Espanha, França, Reino Unido e Estados Unidos, além do apoio do Centro de Análise e Operações Marítimas, da Frontex e da Europol.
O panorama global do tráfico de droga segundo a ONU
O relatório da UNODC vai além da situação específica de Portugal e traça um retrato mais amplo da produção e do consumo de drogas no mundo. A produção de cocaína continuou a crescer em 2024, tendo mais do que quadruplicado nos últimos dez anos, atingindo uma estimativa superior a 4.000 toneladas na forma pura. Paralelamente, o consumo global de drogas ilícitas continua a aumentar, com uma estimativa de 331 milhões de consumidores em 2024, o equivalente a 6,2% da população mundial entre os 15 e os 64 anos.
Entre as substâncias mais consumidas, a canábis mantém a liderança, com 256 milhões de utilizadores em 2024, seguida pelos opioides, com 63 milhões, pelas anfetaminas, com 32 milhões, pela própria cocaína, com 25 milhões de consumidores, e pelo ecstasy, com 21 milhões. O relatório alerta ainda para a contínua inovação dos fabricantes de drogas ilícitas na criação de novas substâncias sintéticas: em 2024, foram apreendidos cinco vezes mais tipos de drogas do que antes do ano 2000, com 755 novas substâncias psicoativas em circulação, das quais 118 foram identificadas pela primeira vez nesse ano.
A combinação entre o relatório da ONU e a operação concreta levada a cabo pela Polícia Judiciária deixa claro que a presença de Portugal nesta rota não é uma hipótese teórica, mas um fenómeno já documentado em casos reais junto à costa e aos arquipélagos. Para as autoridades portuguesas, o reforço da vigilância marítima e a cooperação com agências internacionais como a Frontex e a Europol continuam a ser as principais ferramentas para enfrentar este tipo de criminalidade organizada.
Fontes: Notícias ao Minuto | TSF | Euronews
Autor: Diego Rodríguez Velázquez