Exército Português testa rede móvel tática 4G/5G para garantir comunicações em situações de emergência

August Vardvik
8 Min de leitura

Tecnologia desenvolvida com a MEO permite criar uma rede móvel autónoma em zonas onde as redes comerciais estejam indisponíveis ou degradadas.

O Exército Português testou em Santa Margarida uma nova Rede Móvel Tática 4G/5G desenvolvida em parceria com a MEO para assegurar comunicações em situações nas quais as redes móveis comerciais estejam indisponíveis ou apresentem falhas. A demonstração ocorreu no âmbito dos exercícios ARTEX26 e HEDI OPEX26-1, num cenário simulado de tempestade severa, com falhas de energia e indisponibilidade das redes públicas.

A solução foi concebida em Portugal e representa um investimento de cerca de 587 mil euros, financiado através da Lei de Programação Militar. Segundo o Exército, a tecnologia está orientada não apenas para operações militares, mas também para o Apoio Militar de Emergência, podendo ser utilizada em situações de catástrofe ou quando infraestruturas civis de telecomunicações deixem de funcionar.

Rede autónoma pode funcionar quando as redes comerciais falham

Durante a demonstração realizada no Campo Militar de Santa Margarida, foi criada uma denominada “Bolha Tática 4G/5G”, uma rede móvel privada e autónoma destinada a garantir comunicações no terreno. A estrutura permite disponibilizar serviços de voz, dados, vídeo e geolocalização entre um centro de operações e as equipas mobilizadas no local.

Uma das características da solução é a possibilidade de funcionar de forma autónoma relativamente às redes móveis comerciais. Desta forma, quando uma infraestrutura convencional fica indisponível, a rede tática pode manter uma ligação local entre os equipamentos utilizados pelas equipas no terreno. Segundo a informação divulgada pelo Exército à Agência Lusa, o sistema também pode recorrer a comunicações por satélite para estabelecer uma ligação com o exterior.

A tecnologia foi testada num cenário que simulou condições adversas, incluindo uma tempestade severa, falhas de energia e a indisponibilidade das redes móveis públicas. O exercício procurou reproduzir uma situação em que as forças destacadas para uma emergência precisam de manter canais próprios de comunicação para coordenar operações e trocar informação em tempo real.

A solução conta ainda com diferentes configurações para utilização no terreno. Uma delas é o formato “ManPack”, concebido para facilitar a mobilidade e a rápida projeção do sistema. Existe também uma versão instalada num atrelado, equipada com gerador próprio e com maior capacidade e autonomia energética.

Tecnologia portuguesa poderá apoiar operações de emergência

Embora tenha origem numa necessidade operacional do Exército, a nova infraestrutura foi pensada para ter utilização dual. Isto significa que a tecnologia pode ser empregue tanto em operações militares como no apoio às autoridades em situações de emergência civil. O Exército enquadra esta capacidade no Apoio Militar de Emergência, sobretudo em cenários nos quais as infraestruturas convencionais de telecomunicações estejam degradadas.

Entre os cenários considerados estão situações de catástrofe, grandes falhas de infraestruturas e outros acontecimentos que possam comprometer temporariamente as comunicações. A existência de uma rede própria permite estabelecer uma estrutura local para a troca de informação entre equipas e centros de comando, sem depender exclusivamente da disponibilidade das redes comerciais.

O chefe do Estado-Maior do Exército, general Eduardo Mendes Ferrão, destacou a importância de dispor de soluções que possam ser rapidamente projectadas quando as infraestruturas civis deixam de estar disponíveis. Segundo informação divulgada pela Lusa, o responsável relacionou a necessidade desta capacidade com experiências recentes de falhas de energia e fenómenos meteorológicos adversos.

Outro elemento destacado pelo Exército é a possibilidade de interligar diferentes sistemas no futuro. A instituição admite evoluir para um conceito de “bolhas em rede”, através da ligação de várias redes móveis táticas. A ideia permitiria ampliar progressivamente a área abrangida e criar uma estrutura de comunicações mais extensa em operações de emergência.

Apesar da demonstração, alguns dados técnicos ainda não foram divulgados. O Exército não indicou, por exemplo, o tempo necessário para instalar o sistema, a área de cobertura que poderá ser alcançada ou o número máximo de utilizadores que poderão estar ligados em simultâneo. Esses parâmetros poderão ser conhecidos com maior detalhe durante a apresentação oficial da capacidade.

Apresentação oficial está prevista para outubro

A demonstração realizada em setembro ocorreu durante os exercícios ARTEX26 e HEDI OPEX26-1, que incluem actividades de experimentação operacional em condições próximas de cenários reais. O Campo Militar de Santa Margarida, no distrito de Santarém, foi utilizado para testar a tecnologia desenvolvida em parceria entre o Exército e a MEO.

A apresentação oficial da nova capacidade está prevista para 14 de outubro de 2026, novamente no Campo Militar de Santa Margarida. Nessa ocasião, deverão ser apresentadas de forma mais detalhada as funcionalidades da Rede Móvel Tática 4G/5G e a forma como poderá ser utilizada em diferentes cenários operacionais.

O projecto é também apresentado pelo Exército como um exemplo de desenvolvimento tecnológico nacional. A solução foi concebida e desenvolvida em Portugal, com participação de engenheiros portugueses e conhecimento tecnológico da MEO. Para o Exército, a aposta permite desenvolver uma capacidade própria destinada a responder a necessidades identificadas nas operações e no apoio a situações de emergência.

A criação da rede surge num contexto em que a resiliência das telecomunicações ganhou maior relevância em situações de emergência. Uma falha generalizada das redes pode dificultar a coordenação entre equipas de socorro, forças de segurança, estruturas de comando e outras entidades envolvidas numa resposta operacional. Uma infraestrutura móvel autónoma pode funcionar como uma alternativa temporária nesses cenários, embora a sua capacidade concreta dependa das condições de instalação e operação.

A nova tecnologia também acompanha uma tendência mais ampla de utilização de redes 4G e 5G em aplicações que ultrapassam o uso convencional dos telemóveis. Em Portugal, a infraestrutura 5G continua a expandir-se: dados divulgados pela Comissão Europeia com base em informação da ANACOM indicavam 16.142 estações 5G instaladas no final do segundo trimestre de 2026, abrangendo todos os 308 municípios.

A Rede Móvel Tática desenvolvida pelo Exército e pela MEO segue, contudo, uma finalidade específica: disponibilizar comunicações autónomas e rapidamente projectáveis quando as redes públicas não conseguem assegurar o serviço. A apresentação de outubro deverá permitir conhecer melhor o funcionamento e o potencial de utilização desta tecnologia em operações militares e no apoio a emergências civis.

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